Com a quarentena, como os profissionais de saúde chegarão ao trabalho?

Uma breve conversa, seguida de uma sugestão para gestores de transporte da área da saúde

Governos e cidades no Brasil têm prorrogado as medidas de isolamento social para ajudar a combater o coronavírus — como o fechamento temporário das linhas de ônibus do transporte público, por exemplo.

Mas o transporte coletivo é um serviço básico prioritário que não pode ser interrompido — Como os profissionais de saúde vão chegar ao trabalho? E o pessoal da limpeza do hospital? Os colaboradores de outros serviços essenciais?

O seguinte mapa dos arranjos populacionais mostra a relação entre os municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 2015. Entre Rio de Janeiro (com 6 milhões de habitantes) e São Gonçalo (com 1,2 milhões de habitantes) diariamente 70 mil pessoas se deslocam indo e vindo para o trabalho, estudos ou para satisfazer outras necessidades.

Morando em São Gonçalo você sabe como é
hoje a tarde a ponte engarrafou
E eu fiquei a pé
 — São Gonça, canção de Seu Jorge

Intensidade dos deslocamentos para o trabalho Fonte: IBGE 2015

Um dos aspectos mais interessantes do lockdown é o fim dos engarrafamentos, uma vez que grande parte de população deixa de ir ao trabalho.

Mas ao que parece, para os governos, a solução para os que ainda precisam chegar até o local de trabalho é:

— Eles que se virem!

— Vá de carro!

— Não tem carro? Compre ou alugue, oras!

— Pegue um Uber ou Táxi!

Eu não me sinto confortável com essas respostas. Não é algo simpático e soa contraditório, no mínimo.

Enquanto temos que salvar a humanidade ficando em casa, fazendo home office ou até mesmo sem fazer absolutamente nada — sendo quase considerado um herói por isso (um herói de escritório) — a equipe de saúde tem o “privilégio” de ser a salvadora da humanidade, cuidando das vítimas do coronavírus e correndo um alto risco de contágio.

Mas na hora de saírem de casa, a resposta que eles têm é:

Se vira, porque não temos transporte! Não organizamos NADA para vocês… Mas como valorizamos muito a sua profissão, hoje a noite faremos um panelaço em sua homenagem, OK?

Isso parece justo pra você?

Eu acho interessante avaliarmos a situação por um ponto de vista mais humano — mas que também pode trazer benefícios do ponto de vista epidemiológico.


O ponto de vista humano

As pessoas que trabalham no combate a COVID-19 já sofrem porque tem que trabalhar duro num ambiente de altíssimo risco de contágio — na Itália, mais de 10% dos colaboradores de saúde estão contaminados.

Apenas tente imaginar como deve ser trabalhar nesse tipo de condições: Estressado, sem os equipamentos adequados, e após sair de um plantão de 12 ou até 24 horas, exausto… descobrir que o serviço de transporte só funciona daqui há uma hora. Ou pior: Que você ainda tem que ficar mais um tempinho porque o seu colega, que vai te render, ainda está tentando chegar até o trabalho. E nesse momento, entram mais três pacientes e você tem que tratá-los com urgência. Consegue ver o efeito cascata causado por uma “simples” falta de transporte?

Por isso não acho justo que eles tenham que pagar ainda mais (em preço, esforço ou estresse) para chegar até o trabalho.

Então, se as linhas de ônibus intermunicipais estão temporariamente fechadas, como no Rio de Janeiro por exemplo, sugiro criar uma alternativa para ajudarmos estes verdadeiros heróis!

O ponto de vista epidemiológico

Você quer evitar que uma pessoa que acabou de tratar pacientes com coronavírus possa contaminar outros passageiros no transporte coletivo. Faz sentido separar o fluxo de colaboradores da saúde.

Na COVID-19 — diferente de outras viroses — o paciente não fica doente primeiro para só depois começar a contaminar os outros. Na maioria dos casos, você já começa a contaminar os outros sem sequer mostrar os sintomas da doença.

Por isso também é importante manter registrado qual passageiro viajou com qual motorista e com quais outros passageiros — para poder saber quem viajou junto com um passageiro, caso este manifeste os sintomas do coronavírus alguns dias depois.

Se seguirmos as orientações das autoridades, conseguimos mitigar o risco de contaminação. Isso significa que um ônibus executivo onde normalmente cabem 46 passageiros — utilizando-se a regra de manter 1,5m de distância — só comportarão 12 passageiros.

Disposição de assentos em um ônibus, seguindo as recomendações das autoridades.

Pois bem: Parabéns, excelente teoria!

Mas como isso funciona na prática?


Uma abordagem prática em 7 passos

Já ouvi de vários municípios que os gestores dos hospitais decidiram disponibilizar um ônibus para os colaboradores que vieram de outros municípios. Até o momento que este texto foi postado, sei que é esse o caso em Macaé (Hospital de Prefeitura Municipal), Campos dos Goytacazes (Hospital Geral de Guarús) e em Maricá (Hospital Municipal).

Caso você, caro leitor, conheça mais hospitais que estão fazendo este procedimento, me avise, por favor!

Acredito que os gestores e pessoal encarregado de organizar e planejar esses transportes podem melhorar o planejamento seguindo estes passos:

1. Mapear a demanda

Quais são as origens e destinos a atender? Para chegar na resposta, é preciso primeiro saber quais pessoas terão de ser buscadas e levadas, em qual hora e em quais dias.

2. Definir o tipo de atendimento

Vou poder colocar um ônibus a partir da rodoviária até o meu hospital ou vale a pena buscar as pessoas mais perto de casa? Tenho demanda o suficiente para um serviço de fretamento ou vale a pena criar um pool junto com hospitais próximos?

3. Criar a rota

Com base na demanda e na oferta (tipo de serviço que vou ofertar), faça a rota com itinerário e horários.

4. Despachar a rota

  • Para o operador: passe a lista dos passageiros para o operador (empresa de transporte ou pessoa responsável para a execução).
  • Para o passageiro: informe a todos os colaboradores sobre o horário que ônibus vai passar. As pessoas gostam de ter uma confirmação que está tudo conforme o planejado.

5. Ao embarcar

Embarque as pessoas mas reduza a capacidade do ônibus à metade. Anote quem está embarcando (você quer ter esse controle de acesso), eventualmente, você pode precisar saber quem está sentado em qual assento.

6. Durante a viagem, engajamento: Surpreenda as pessoas

Trabalhar a comunicação é sempre importante e também uma oportunidade de demonstrar cuidado. Um exemplo seria colocar um busdoor para indicar que ali estão as pessoas que estão batalhando por nós contra o coronavírus. Além de informar você estará estimulando uma boa reação do público. A mensagem também pode ser um pouco mais pessoal como, informar aos familiares que papai ou mamãe está chegando em casa, por exemplo.

7. Ao desembarcar e na administração

Peça ao colaborador para avaliar a viagem — se o serviço for ruim, ele já vai fazer isso de graça. É fundamental ter o feedback para avaliar suas decisões e mudar o que for necessário para atender melhor.

Espero que essas dicas facilitem o trabalho de vocês gestores. Se precisar de apoio nesse processo de planejamento, monitoramento e informação, será um grande prazer ajudar. Todos precisam muito desses profissionais que estão na linha de frente, descansados e cheios de energia, de preferência!

warner

Autor: warner

CEO of Buus | Promovendo a transformação digital do transporte de colaboradores no Brasil e no mundo.

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